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Falsos mitos: é preciso derrubar tabus para investir e ganhar com pontocons brasileiras

Por Kevin McDonald

Mito # 1: Não existem saídas seguras para os investidores

Durante anos, os investidores de private equity descartaram o Brasil porque não havia mercado para vender uma companhia local. A Bovespa não é para empresas pequenas e a Nasdaq é seletiva demais para a maioria das empresas estrangeiras. Dessa forma, a maior parte dos investidores de private equity ficou longe do Brasil, apesar do tamanho de sua economia e de seus abundantes recursos naturais. As companhias de internet têm demonstrado que essa premissa é coisa do passado. Nossa empresa, a McDonald Lehner, vendeu 12 companhias de internet brasileiras nos últimos dois anos. Muitos, mas não todos os compradores - PSINet, IFX, StarMedia e Vesper, por exemplo - têm sido empresas estrangeiras que queriam estabelecer sua presença no Brasil. Muitas outras transações - incluindo as da Mandic (Impsat e depois El Sitio), Zaz (Telefónica), Matrix (Primus), Netstream (AT&T) e Zip.Net (Portugal Telecom) - demonstraram que havia boas oportunidades de saída para boas companhias. A tendência vai continuar, embora a Nasdaq tenha perdido a metade do valor no ano passado e muitos compradores não tenham suficiente dinheiro ou ações para uma aquisição. Há novos compradores potenciais que estão ocupando o lugar dos que chegaram primeiro. Em fevereiro de 2001, vimos, por exemplo, a venda do Zip.Net para a UOL. Algumas das jóias disponíveis são:
  • - Iconet, um fornecedor de internet (ISP) para empresas, em São José dos Campos.
  • - BRBusca, un notável buscador, em Belo Horizonte.
  • - Importantes domínios de internet, como shopping.com.br e mall.com.br.

Mito # 2: A consolidação não funciona no Brasil

Muitas empresas bem-sucedidas nos Estados Unidos foram criadas com aquisições. Mas os investidores temem que esse processo não funcione no Brasil, onde as fusões são pouco comuns, as diferenças culturais e regionais dificultam a integração do pessoal e as distâncias não são superadas facilmente. Exemplos desse argumento são as dificuldades da PSINet e da IFX quando integraram as ISP que compraram.

A verdade é que a PSINet e a IFX precisavam de mais capital do que podiam arrecadar. Foram vítimas da queda da Nasdaq. Seus executivos não foram responsáveis pela falta de financiamento adequado. Felizmente, nenhuma dessas companhias morreu no Brasil, apesar de sua necessidade de mais financiamento. Recentemente, a PSINet vendeu a Inter.net, que representava boa parte de sua atividade no Brasil. Agora, a Inter.net, dirigida por Clovis Lacerda, pode completar a integração e refazer os investimentos iniciados antes da queda do Nasdaq. Enquanto isso, a IFX, dirigida no Brasil por John Weimer, também está trabalhando duramente para melhorar suas atividades, apesar das limitações de capital.

Uma consolidação mais fácil foi a da Terra, que comprou a Zaz e vários pequenos ISP. A integração foi bem-sucedida e a empresa transformou-se em líder de mercado. Significativamente, a Terra tinha capital abundante.

Há outras oportunidades de consolidação em internet hoje em dia. Um exemplo é o desenvolvimento de aplicações sem fio para internet. Em Belo Horizonte, a TakeNET tem 20 programadores escrevendo códigos para ampliar os serviços de internet dos operadores celulares, operadores de transmissão de dados sem fio e também corporações que precisam estar em contato com uma força de trabalho móvel. Em outras regiões do país, poucas companhias semelhantes, combinadas com a TakeNET, formariam uma poderosa entidade com um objetivo de aquisição irresistível para uma empresa maior.

Mito # 3: é necessário construir um negócio em escala pan-regional

Muitos investidores de private equity insistem em estabelecer uma companhia pan-regional ou, ao menos, que cubra o Mercosul, porque consideram necessário para atrair um comprador. Isso é caro, difícil e desnecessário. Várias firmas - como a UOL, por exemplo - têm tentado cobrir toda a região, só para mudar de planos depois de ter aprendido a lição na marra. Outras companhias - como StarMedia e AOL - ainda estão tentando, mas continuam enfrentando um grande desafio, apesar do tempo e do dinheiro já investidos.

O Brasil é um mercado suficientemente rico para abrigar grandes companhias. Tanto compradores estratégicos como financeiros vão pagar um alto preço por uma empresa forte no país.

Mito # 4: O Brasil está atrasado e não pode criar empresas de sucesso

Este ponto de vista levou alguns investidores a procurar altos retornos em negócios pouco tecnificados e a evitar a internet. Ledo engano. Há negócios que precisam de serviços locais e são melhor atendidos por empresas locais. Temos visto muitas pontocons locais surgirem e serem vendidas por um preço atrativo. Em breve, virão outras.

Hoje em dia, o Brasil tem uma boa variedade de companhias tecnológicas domésticas, incluindo fornecedores de serviços de primeira milha (Alta), companhias que abrigam sites (ComDominio), empresas de desenvolvimento (BHTec), integradores de sistemas (Saga), alguns ASP, inclusive sites de comércio eletrônico para consumidores (ikids, por exemplo, que vende brinquedos de alta qualidade). Estas companhias serão, eventualmente, adquiridas por outras maiores e a um bom preço. Os empresários brasileiros, em alguns casos, estão a apenas algumas horas atrás de seus colegas estrangeiros em termos de tecnologia; lêem as mesmas newsletters, vão às mesmas conferências e se abastecem com os mesmos fornecedores.

Mito # 5: Os gerentes brasileiros precisam de um MBA de Harvard

Muitos investidores interessados no mercado brasileiro preferem investir somente com empresários locais que tenham um MBA estrangeiro ou que tenham trabalhado com uma multinacional por, pelo menos, dez anos. Acreditam que essas credenciais são indicadores de aptidão, compromisso e capacidade. Conseqüentemente, recusaram alguns bons projetos que, depois, acabaram mostrando grande sucesso.

Um dos nossos antigos clientes foi uma empresa fundada e dirigida por três jovens com apenas o segundo grau completo. Os investidores estavam preocupados porque nenhum deles tinha um MBA ou uma carreira na IBM. Mas a trajetória dos três era fantástica. Criaram um dos maiores ISP na terceira maior cidade do mundo (São Paulo). Terminaram vendendo a companhia para um comprador estratégico estrangeiro que percebeu suas conquistas e, portanto, seu talento. Os três formaram recentemente uma nova companhia chamada WebForce, uma empresa de investimentos e consultoria. Acabou sendo mais fácil arrecadar dinheiro nessa ocasião.

Felizmente, há muitos empresários brasileiros que construíram companhias valiosas que foram vendidas para grandes compradores, ganhando credibilidade para sua próxima tentativa de conseguir capital. Muitos deles farão os investidores lembrarem que o desempenho histórico no trabalho é mais importante que o pedigree.

Esse é o campo onde será jogada a fase seguinte de investimentos de private equity no Brasil. Não é uma projeção de um futuro mais fácil, mas um reconhecimento de um grande progresso em pouco tempo, em termos de definir o que funciona e o que não funciona. O índice Nasdaq pode estar no chão, mas as oportunidades para os investidores de private equity no Brasil estão apenas começando.

Diretoria

Kevin McDonald
25 anos de experiência em bancos de investimento, consultoria, private equity, e negócios internacionais
Michael Lehner
Atuando há trinta anos no campo da alta tecnologia, como gerente operacional, consultor, investidor e diretor de banco de investimentos
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